Eles são de São Paulo, mas tem o pé e a cabeça no mundo. Nasceram da fusão de ritmos brasileiros (baião, forró, carimbó), sonoridades africanas, influências latino-americanos e da vontade de um grupo de amigos de montar uma banda que proporcionasse a eles e ao público a experiência de viajar musicalmente por diferentes lugares e culturas. Quando falamos de público, nos referimos a qualquer pessoa que esteja circulando na rua quando eles começam a tocar músicas feitas para serem tocadas em um só palco: a cidade. Hoje, depois de 2 anos da formação original, O Grande Grupo Viajante se alimenta dos sorrisos, olhares e reações dessas pessoas. O trabalho está registrado em dois EPs (O Grande Grupo Viajante, de 2013, e O Caminho é o Mar, de 2015) .

Conversamos com a banda sobre a relação dos integrantes com a rua, que foi palco do E Se Essa Rua Fosse Sua?, evento da Youcom que rolou no dia 28 de agosto em São Paulo e no qual a banda foi uma das atrações. Vem com a gente:

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Como surgiu a O Grande Grupo Viajante? Desde o começo vocês queriam fazer da rua, palco?

A banda surgiu em 2013 com uma primeira formação, que gravou o nosso primeiro EP e fez shows na capital e no interior de São Paulo. Depois do lançamento do EP, ficamos um tempo parados, até que o Bruno Sanches (idealizador do projeto) aos poucos foi encontrando e unindo outros músicos que se identificaram com a banda. Foi quando retornamos em 2014 com uma proposta de misturar mais ritmos, pesquisar sons regionais, conhecer outras bandas e a cena musical brasileira. Foi em 2014, depois da volta do hiato e a partir da segunda formação da banda, que decidimos que a rua seria nossa casa, pois entendemos que esse é o espaço mais democrático para se apresentar com autonomia e também para atingir um público diversificado e heterogêneo. 

Hoje, parte do grupo mora no espaço cultural Casinha da Mooca. Como este ambiente influenciou a banda?

A vivência foi ótima para a banda, conviver é algo que faz com que você, como indivíduo, entenda e enxergue melhor o outro. Pra nós, o trabalho do dia-a-dia  e a gestão de uma casa nos trouxe muita união como banda. Morarmos juntos fez com que ficássemos mais próximos musicalmente e artisticamente, facilitando troca de ideias e indicações; também, ver filmes juntos, ler o livro que o outro gostou, ouvir musicas juntos, ver shows etc. Não é a toa que desde que moramos juntos, houve uma explosão de composições em parceria dentro da banda, esse convívio sem duvida é positivo.

De que maneira a vivência artística das ruas modificou vocês como banda?

Tocar na rua influenciou muito a nossa música, principalmente em relação ao conteúdo das letras. Nós sempre gostamos de misturar ritmos, de brincar com a música, gerar sensações, e na rua você precisa prender a atenção das pessoas, então sempre tem que surpreender de alguma forma. Além de levar ritmos dançantes, começamos a nos preocupar com letras que levassem uma mensagem de protesto, de luta, de força, de amor, conteúdo para as pessoas refletirem sobre a vida no geral. Fazer isso na rua é um ato bem revolucionário. É surpreendente como as pessoas prestam atenção nas letras e na daça e como isso  realmente influencia muito na vida delas. A alegria contagia e  pra nós é maravilhoso!

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O Grande Grupo Viajante na Casinha da Mooca 🙂

Por que vocês escolheram tocar na rua ao invés de em casas de show?

Quando começamos a tocar na rua, nós percebemos quanto a proximidade com o publico é importante. Nas casas de show normalmente as pessoas pagam para estar lá, e estão bebendo, conversando, flertando, sendo que algumas vezes o foco não é a música. Foi bem decepcionante tocar em algumas casas de São Paulo, principalmente na Vila Madalena. Os donos das casas não respeitam o músico, não tratam como um trabalhador. Em contrapartida na rua, as pessoas que param estão totalmente interessadas na música, querem ouvir o que a banda tem a dizer e a mostrar. Além disso a rua quebra com aquela barreira de artista – espectador , por que as pessoas se sentem a vontade de vir conversar conosco ao final da apresentação, e esse retorno, essa troca pra nós é muito importante. Já aconteceram muitas situações de pessoas se emocionarem com nosso show e virem dar um abraço, conversar, nos presentear com livros, desenhos, fotos de outros artistas de rua também. Além disso tocar nas ruas é uma forma de levar arte pra todos, sem cobrar nada em troca. Existe em nosso país uma grande desigualdade social, e isso se reflete muito nos frequentadores de casas de show, bares e etc, então tocando na rua conseguimos atingir pessoas que não tem condições de estar nesses lugares.  

Hoje vocês não tocam mais em lugares fechados, então?

Não trocamos uma coisa pela outra, a gente toca de vez em quando em casas de show sim, não é algo que deixamos de fazer, só diminuímos bastante, pois a rua pra nós é sagrada, não vamos deixar de fazer nunca, tocar na rua tem sido muito mais instigante e desafiador como banda, artistas e pessoas para nós.  

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O Grande Grupo Viajante no Vento Festival, em Ilha Bela, esse ano.

Na opinião de vocês, os movimentos de rua conseguem fazer com que as pessoas ressignifiquem a forma como se relacionam com a cidade? 

Com certeza esses movimentos conseguem ressignificar a utilização do espaço público. É muito importante que isso continue, seja reconhecido e cada vez mais expandido, e não adianta ser só na região central, pois assim continuará segregando, é importante que isso se estenda para as áreas mais periféricas da cidade, tornar a rua um local agradável novamente, para se encontrar com os amigos, para consumir arte e ficar tranquilo também.

Em que momento a música entra nesse processo?

A música tem o poder de chegar mais longe do que somente as palavras… às vezes não é preciso dizer uma palavra sequer, apenas o instrumental já toca as pessoas. Esse trabalho de ocupação das ruas com música, faz com que pessoas diferentes convivam naquele espaço, dançando, cantando, celebrando com muito respeito. Muitas vezes nós vemos em nosso show pessoas totalmente diferentes, de classes sociais distintas, se divertindo juntas, o que seria impossível em outro espaço que não a rua. Por exemplo, os moradores de rua normalmente são mal quistos pelas pessoas, às vezes até ignorados, e em nossos shows eles dançam, se divertem ao lado das outras pessoas (que normalmente os ignoram, ou não os querem por perto)… durante o show elas não se incomodam, interagem e se divertem. Ou seja a música tem o poder de aproximar as pessoas, quebrar essas amarras sociais e transformar vidas, nós acreditamos muito nisso e é um combustível pra seguir esse trabalho.

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O Grande Grupo Viajante na Paulista Aberta, em São Paulo.

Existe alguma banda de rua/festa/ocupação que tem chamado a atenção de vocês ultimamente?

Tem muita coisa acontecendo na rua, muitas bandas amigas, como Teko Porã,  Amoradia do Som, Picanha de Chernobyl, AstroVenga e Ôncalo. Tem também um projeto muito lindo que mostra bandas de rua pelo mundo inteiro que chama Street Music Map, vale a pena dar uma olhada também. As festas e outros movimentos a gente não tem muito contato, mas toda ocupação de espaço publico com arte, que seja feita respeitando as pessoas, é super bem vista por nós!

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O Grande Grupo Viajante no E Se Essa Rua Fosse Sua?

E por último, mas não menos importante: por que é importante ocupar a rua?

Primeiro, é importante ocupar a rua porque ela é nossa, e nós precisamos mostrar que nos importamos com o que é nosso. Segundo, porque precisamos levar arte, música, cultura,  conteúdo para todas pessoas, sem distinção. E terceiro por que precisamos trocar uns com os outros, experiências de vida são o que nos move e nos transforma numa época em que tudo é feito pelo celular, sem o olho no olho. Ocupar a rua e conhecer pessoas é uma necessidade dos seres que querem transformar esse mundo em um lugar melhor.

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