Ele esteve por aqui em Setembro e contou um pouquinho de tudo. Vem pro blog se apaixonar (mais ainda) por esse músico/pessoa mrvls!

As músicas de Claridão (2012), Vista pro Mar (2014) e Júpiter (2015) já tocaram afú nos fones de ouvido e nas playlists dos rolês de quem curte SILVA aqui em Porto Alegre. Mas foi só agora, em setembro, que os fãs gaúchos do capixaba puderam mandar aquele beijinho no ombro para quem disse que “ele nunca tocaria em Porto Alegre”. No dia 23 de setembro, Lúcio Silva de Souza desembarcou pela primeira vez em Portinho – pelo menos desde que se tornou SILVA – para tocar. Por volta das 20h, a banda subiu no palco do Opinião e tocou as músicas que os fãs chegaram a esperar até 5 anos para ouvir ao vivo. O show foi curto, durando um pouco mais de uma hora, mas foi o suficiente para que o multi-instrumentista demonstrasse todo o seu talento. E bota talento nisso!

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Silva no Opinião, por Vitória Proença (Marquise 51)

Pra quem não sabe, o cara tem interesse por música desde pequenininho. A mãe, que é formada em flauta e piano, sempre o incentivou a seguir esse caminho. Na família, o tio também era pianista e os dois irmãos mais velhos estudaram música, mas nenhum chegou a seguir carreira.

“Estudo violino desde os 5 e piano desde os 7. Depois disso, acabei aprendendo a tocar guitarra na Igreja e outros instrumentos como baixo”, conta Lúcio. Além da música erudita, outra escola que contribuiu para a formação de Lúcio foi a Igreja Protestante, onde também aprendeu muito de música, como contou anteriormente. Para ele, ainda que faça uma música mais “pop” hoje em dia, a presença dessas duas correntes artísticas permanece notável em seu trabalho atual. “Foram escolas fortes para mim. A música erudita é muito ampla e tem muitas caras, e acho que, de vez em quando, uma dessas caras influenciam o som que eu faço”, explica.

Além de ter começado a estudar piano e violino ainda pequeno, Lúcio também formou-se em música, pela Faculdade de Música do Estado (FAMES), de Vitória. Onde fez especialização em violino e embora tenha crescido imerso na música erudita, ele acredita que a música popular também tenha influenciado a sua trajetória, podendo ser tão interessante quanto a experimental.

Acho que é possível soar popular e não ser rasteiro. Essa forçação de barra intelectualoide sempre me entediou”, comenta. Não é à toa que hoje em dia ele faz música pop/eletrônica sem soar experimental, mas, ainda assim, com uma complexidade de elementos, que, juntos, soam interessantes e até mesmo viciantes. Mas nem sempre foi assim, o EP “SILVA” (2011) e o álbum “Claridão” (2012), ainda eram reflexos de um SILVA mais ligado às suas raízes. Foi só em “Vista pro Mar”, de 2014, que o capixaba se abriu de vez para os elementos eletrônicos.

Embora o trabalho dele tenha mudado gradativamente, o preconceito com a música pop nunca foi uma questão na vida do Lúcio. Pra ele, o prejulgamento da cultura de massa, que de vez em quando rola na Academia, não tá com nada. “Sempre questionei esse lance da contemporaneidade. Meus professores só me levavam até o período pós-romântico ou impressionista da música e eu sentia falta de avançar, de chegar em Stockhausen, depois avançar pra música eletrônica, pro minimalismo, pra música pop”.

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Silva no Opinião, por Vitória Proença (Marquise 51)

Mesmo que “Júpiter”, último álbum do SILVA, seja mais pop que os anteriores, ainda não estamos falando do pop que toca nas rádios, que é protagonista nas trilhas sonoras das novelas das 9, ou que chega nos top charts do Spotify Brasil. A gente tá falando de um “pop alternativo”, o mesmo que a Dingo Bells faz hoje, por exemplo, e que apresentou logo depois do show do SILVA, no Opinião.

Sobre esse novo cenário da música indie brasileira, que vem sendo pintado pelos veículos de mídia alternativos, Lúcio diz não colocar rótulos no que faz. Ele sabe que não faz música para “ser incompreensível” e não força essa barra, fora isso: “O que acontece é que o mainstream brasileiro, hoje, não é mais o pop. Ele é o sertanejo e outras poucas coisas que aparecem na TV, de resto, é a Internet que vem salvando e ajudando os artistas menos televisivos a expandirem seu público. Uma hora pode ser que nosso som chegue pro grande público, sim. Quem sabe?”, comenta.

E é possível mesmo. No Spotify, a plataforma de streaming com maior número de usuários no Brasil, SILVA já alcança mais de 200 mil audições por mês. Além disso, “Feliz e Ponto”, single do disco “Júpiter”, chega a quase 900 mil plays no Spotify, e o clipe da música já passou de 1 milhão de visualizações no YouTube.

O vídeo ganhou os holofotes da mídia logo no lançamento, pois apresenta como tema o amor sem fronteiras, onde um casal formado por dois homens e uma mulher, incluindo Lúcio, protagoniza o clipe. Foi neste mesmo vídeo, inclusive, que o cantor se assumiu bissexual para os fãs. Ao mesmo tempo, houve fãs que acharam o clipe lindo, e houve preconceituosos que acessaram o vídeo apenas para criticar a opção sexual do músico, ou seja, a temática está sendo discutida, mas ainda precisamos avançar muito para combater os pensamentos preconceituosos que ainda, infelizmente, encontram voz no Brasil. E o Lúcio tá mais do que disposto a entrar nessa luta também: “Acho que essa questão tem sido mais discutida, o que já me deixa feliz. Apesar de que, essa ascensão conservadora, me deixa com um pouco de medo em relação ao futuro, mas acho que muita gente está lutando pra que o Brasil seja menos careta e eu quero contribuir com o que posso”.

Fica ainda mais fácil contribuir com tanta visibilidade na Internet… o espaço construído nas plataformas online hoje pelo músico é incrível, mas não surgiu do dia para a noite. Isso, porque foi lá no Myspace, onde vários outros artistas que a gente ouve hoje em dia também começaram, que o Lúcio postou as suas primeiras músicas.“Lembro que ouvia muitas coisas novas no Soundcloud, bandas pequenas que postavam músicas lá e achei que seria uma boa ideia dividir minhas primeiras gravações com as pessoas. Foi quando resolvi postar minhas músicas na Internet”, contou.

O músico fez tanto sucesso no Myspace, que acabou sendo chamado para gravar o seu primeiro disco pela Som Livre, uma das cinco maiores gravadoras do país, onde ele permanece até hoje. Sob o codinome “Silva”, o sobrenome mais comum do país.

Sobre a mudança de gravar em um estúdio caseiro, no quarto, e ir direto para uma gravadora desse porte, ele nos contou que não mudou muita coisa: “A gravadora me deu e continua me dando muita liberdade criativa. Eles me contratam porque gostaram do som que eu fazia e ninguém tentou me moldar ou me colocar numa competição com alguém do mercado. A diferença é que a música virou minha carreira e não apenas um hobby de alguém que brincava de fazer música em casa e postar na Internet”, explicou.

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Silva no Opinião, por Vitória Proença (Marquise 51)

Além do processo não ter mudado, seu irmão Lucas, continua sendo seu braço direito. Desde as primeiras músicas, lá do álbum “Claridão”, eles compõem juntos. “Eu geralmente crio as melodias e ele faz as letras. Ninguém me entende tão bem como o Lucas”. O que mudou, talvez, foi o lugar onde dá pra parar e pensar nas letras e nas melodias. Em “Vista pro Mar”, o processo foi em retiro, mas “Júpiter” foi escrito na estrada. “O processo acaba sendo o mesmo. Compor em turnê só requer um pouco mais de concentração”, conta.

Voltando às origens, lá em Vitória – Espírito Santo, onde o cantor mora até hoje, perguntamos quais bandas da região não podemos deixar de ouvir. E ele respondeu: “A cena aqui é bem pequena, mas sempre aparecem pessoas interessantes. Gosto da Tamy e do Fernando Zorzal. São amigos talentosos. Fora isso, também tenho ouvido muito reggae ultimamente. Alton Ellis, The Frightnrs, Phyllis Dylan”. E com essas dicas, a gente se despede do Lúcio. Até Júpiter 🙂

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