Um dos artistas mais relevantes da atualidade, o rapper Emicida tá rodando o país apresentando o seu último trabalho, “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”. Ele foi bem legal com a gente e, entre um compromisso e outro, nos respondeu umas perguntinhas. Saca só:

YC- Como a poesia entrou na sua vida? Você sempre foi de criar com a linguagem, é coisa que vem de criança?

Emicida – Vem desde criança. A minha porta de entrada para a leitura foram as histórias em quadrinho. Minha mãe também sempre leu muito, aí eu tomei gosto pelos livros – o que é algo se mantém hoje – e a poesia, meus raps, são meu jeito de contar uma história, assim como as que vejo nos livros. 

 

YC-  Em que contexto o RAP entra? Existia muita consciência política, ou foi uma coisa de brincadeira entre amigos, ou foi mesmo um jeito de se expressar artisticamente?

Emicida – A coisa de rimar começou exatamente em brincadeiras com amigos na quebrada. Um ficava zoando o outro. Aí eu descobri que tinha um pessoal que fazia isso de verdade, às vezes rolava até um dinheiro, e fui ver o que era. Claro que quando você vive na periferia, você começa a ler, a expandir suas ideias, você passa a questionar várias coisas, o por que da injustiça, do racismo. O rap entrou na minha vida de um jeito em que as músicas do livro do Racionais foram um livro de história, a história que eu não aprendia na escola. Ali eu entendi que por mais que parecesse que a periferia era invisível, na música deles ela não era, eu me enxerguei ali. 

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YC- Rap tem uma forte veia questionadora, de levantar os ouvidos para questões sociais importantes. Você acha que isso se deve ao fato de o estilo musical nascer, na maior parte das vezes, nas favelas e periferias, ou é mesmo algo que faz parte do estilo? Ou que até mesmo tenha evoluído pra isso, né…

 

EmicidaEstá no DNA dele [do Rap] desde quando nasceu, nos EUA. O caminho natural foi que as quebradas se vissem ali, como eu vi, uma vez que ninguém mais falava da nossa dor. Agora, sou contra ficar batendo nessa tecla pelo ponto de vista errado, porque faz parecer que ele precisa se limitar a isso ou será descaracterizado. E, antes de mais nada, o rap é música, música contemporânea. Ouso dizer que é a vanguarda da música brasileira hoje. 

 

YC- Com o “Sobre Quadris”, você faz uma viagem musical à África e às origens dos negros no Brasil. Essa viagem, metafórica e física, ao continente mudou o seu jeito de ver a injustiça social por aqui? Como isso influenciou o seu trabalho?

 

EmicidaEu voltei totalmente transformado. A viagem e a convivência com aquele povo me mostrou muita coisa. Algo que está no título do disco, por exemplo, os quadris, ali eu vi mulheres dançando, mexendo os quadris, se divertindo, sem que aquilo fosse sexualizado. Era apenas dança. E tem a coisa das crianças, do povo todo estar fazendo sua lição de casa, seguir vivendo sua vida, felizes, alegres, apesar do contexto que os cerca, de muita injustiça social, muita miséria. Aquilo me transformou no sentido de ensinar que a gente precisa olhar mais para quem está ao nosso lado. A gente aprende mais quando para pra ouvir as histórias das pessoas, se interessar verdadeiramente por elas.

 

YC- Hoje existe uma discussão forte sobre a apropriação da cultura negra na moda, dizendo que pode ser culturalmente ofensivo. O que você acha sobre isso? Porque deve ver também que seu público não é feito só de jovens negros, e que muitos também devem se identificar com o “visual” do rap, não? O que você acha disso?

Emicida – A história do continente americano inteira é sobre apropriação cultural, a terra em que estamos pisando é roubada das populações indígenas. Temos uma batalha sobre hegemonia da beleza e da autoestima e, nesse aspecto, acho positiva a identificação de quem quer que seja com elementos da cultura afro. Eu particularmente falo de um lugar muito singular no meio disso tudo, pois sou um nerd preto que entende um pouco de japonês porque passou a adolescência inteira viciado em cultura japonesa. Mas entendo quando alguém aponta os problemas desse tipo de coisa: por que o turbante e as estampas africanas podem existir dentro de um editorial de moda e modelos negras não? Isso é ofensivo, frustrante, e essa referência tão nossa, quando usada mais uma vez para excluir pessoas não-brancas, é algo que precisa ser questionado, sim, principalmente no Brasil. É a maldição da tia Anastácia, que deu seu melhor para que a nossa gastronomia fosse respeitada nos jantares, mas ficou trancada na cozinha vendo todos aplaudirem a Dona Benta pela beleza de uma construção que não saiu das mãos dela. Nossa cultura é inclusiva e isso é maravilhoso, mas o preço para fazer parte dela de verdade é agir para que essa sugestão de inclusão contamine outros setores da sociedade, caso contrário você não entendeu nada do que o Emicida disse.

YC- E o seu envolvimento com o Laboratório Fantasma, como se dá? Você até já apresentou a história deste projeto fora, né? Conta um pouquinho como é que funciona.

Emicida – Acho que existe na cabeça das pessoas a ideia de que o Emicida é apenas o artista da empresa, que só aparece nos dias de show. Eu estou ligado em tudo. É claro que o meu irmão, Evandro Fióti, foi se aprofundando no business e hoje entende muito mais de certos aspectos do que eu, tornou-se um grande empresário. Mas eu sei em detalhes absolutamente tudo o que está acontecendo na minha empresa, da rotina de cada funcionário ao desenho de cada peça nova que vamos lançar. Eu estou lá todos os dias!  

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YC- Você tem aí uma década de carreira (pelo menos, né?), e já teve momentos mais prolíficos, lançando singles direto, e agora a coisa parece ter se acalmado um pouco. Você tá focando mais no trabalho do que na divulgação, ou está com mais ideias para lançar álbuns, Eps, em vez de singles?

Emicida – Pelo contrário. Eu não refuto essa ideia de lançar singles, O que acontece é que eu sou curioso demais rs e acabo me interessando por várias coisas ao mesmo tempo. Vamos lançar um documentário da viagem, teve coleção de moda em parceria com marcas, eu nunca estou parado. E claro que, com o tempo, conforme a estrutura para trabalhar foi melhorando, eu pude me dar ao luxo de pensar projetos como esse da África, algo que em termos financeiros seria impensável alguns anos antes. E fazer discos em vez de mixtapes requer mesmo mais dedicação, tempo para conseguir colocar na rua, gera essa sensação talvez de um hiato maior. 

 

YC-  Qual o próximo passo? Tá trabalhando em material novo, alguma ideia aí pra sair em breve? 

Emicida – Com certeza. Como disse, logo sai o DOC da África e estamos voltados também para o EP do Fióti, que está saindo. Depois tem o disco novo do Rael, tem a LAB fazendo 7 anos. Nós vamos comemorar com uma grande festa em SP e muitos projetos novos. 

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