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1. Você vai percorrer o país com a turnê de um disco que foi feito 10 anos atrás, o “Ainda há tempo”. Como vão os preparativos?

Exatamente, é uma turnê bem curta, bem pequenininha, então cada momento vai ser muito especial. A gente nunca teve a oportunidade de fazer o lançamento desse disco, de viver esse disco, e agora a gente têm essa oportunidade. Tá todo mundo trabalhando muito todo dia pra levantar um show que faça jus à energia das pessoas que vão sair de casa pra ir pra lá.

2. Quando o disco foi gravado, parecia possível realizar uma turnê assim?

Não. Impossível. Meu filho, pra você ter uma ideia, esse disco nasceu em 2006, quando eu já tinha 18 anos de carreira. Já tinha tempo, meu filho. Eu tava quase fazendo 30, já. Foi muita luta, dois anos colocando voz, dois anos pagando, um ajuda ali, outro ajuda aqui, outro ali, outro aqui… E nasceu o “Ainda há tempo”.

3. A frase central da faixa-título do disco é “As pessoas não são más, elas só estão perdidas”. Qual é a mensagem por trás?

Essa frase expressa: não vamos perder a esperança no ser humano. São muitas tretas, muitas histórias, muitos caminhos, entendeu? O ser humano passa por muita coisa, o ser humano passa por nada. Você não sabe a concepção de cada um. Às vezes você não consegue entender o irmão que mora no mesmo teto que você. Então é não perder a esperança no ser humano.

4. É uma frase muito otimista. 10 anos depois, em 2016, o sentimento é o mesmo?

Otimista ou desesperada, né? O sentimento é o mesmo, sim. Continuamos num abismo social absurdo que descreve as mil faces que podemos ter perante o outro, e cada vez mais precisamos reforçar essa ideia de não perder as esperanças, senão já era, né. Já era a casa, com todo mundo dentro.

5. Sua família passou por muitas dificuldades, mas nunca deixou de valorizar a paixão pelo conhecimento, muito por influência da sua mãe, que é professora e filósofa. Como foi crescer nesse ambiente?

Nunca. Minha mãe tá 24 horas por dia tentando criar um ambiente que te force ao exercício do pensamento. Não uma coisa assim, que o cara imagina que seja um bagulho chato pra caramba, mas ela tá sempre te questionando. E esse questionar pequenas coisas do cotidiano me leva ao ambiente do exercício do pensar, e isso é pra todo mundo. Todos pensam, todos têm construção intelectual, todos têm essa possibilidade. Ainda mais o brasileiro, que é multicultural.

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6. A educação brasileira deveria incorporar mais esses valores de questionar, de paixão pelo conhecimento?

Mas isso aí existe. A pessoa, quando ela opta por ser um professor, um educador, quando opta por ter contato com outro ser humano e dividir algo que ele aprendeu, estar aberto a aprender algo, isso já tá embutido na pessoa. Isso já existe, é implícito e visceral. É uma mentalidade, é um querer. Eu chamo de anjos. Professores e professoras do Brasil todo são como anjos. Dividem sua vida pra passar uma energia pra essa criançada que é o Brasil do futuro. Agora, o que não se tem é o ambiente adequado para que isso aconteça de modo real em todas as escolas. Não existe um ambiente correto para que esse professor possa, com dignidade, cada vez mais se aperfeiçoar e levar o ganha pão para sua residência. Existe uma espécie de não se perceber a importância do professor e da professora em nossa sociedade. Irmão, se cada um em seu gabinete relembrasse a importância que o professor teve em sua vida, não desvalorizasse essa pessoa que passou em sua vida, quem sabe podia tá melhorzinha a situação, né. Tem um cara aqui que tá dedicando a vida a conviver com o seu filho. Qual o salário que ele vai receber? Que subsídio essa pessoa que nasceu pra ensinar – nasceu, é dom – vai ter pra uma alimentação correta, pra estudar tudo aquilo que ela ainda tem vontade de estudar, que vai levar a um aprimoramento pra ela ter cada vez mais um ótimo ambiente, uma ótima troca com seu filho, que tá lá? Com o filho dos outros, que tá lá? Essa criança, o futuro nosso. É tão óbvio, né?

7. O rap está vivendo um momento grandioso, no Brasil e no mundo, em termos de crítica e audiência. Os artistas do rap são a vanguarda, fazem os discos que ainda provocam, fazem pensar. Por que agora é a vez do rap de cumprir esse papel?

Sempre foi a vez do rap. Mas agora é sem excluir ninguém. O rap vem pra agregar. A gente aprende isso nos ensinamentos básicos do hip hop. É a união de várias estéticas, de várias ideias, de vários pensamentos. Sempre foi a vez do rap porque sempre é a vez de quem, em seu coração, acalenta essa arte. Mas não é uma imposição, não é tirando o lugar do outro, entendeu? Essa é a diferença. O rap é isso, ele tá fazendo os corres dele ali e ele é um pouco de cada pessoa. A expressão de arte é um pouco de cada povo, sem querer tomar nada de ninguém, pelo contrário, sempre somando. Hoje você escuta um instrumental de rap e o menino sampleou alguma música regional, da sua cidade, e misturou com um cara lá de Angola, com um arranjo de cordas inspirado num cara lá dinamarquês e sai aquele lance louco.

8. E o rap não apenas como arte ou produto, mas como um transformador de vidas, principalmente de crianças e adolescentes, recebe o valor que merece?

O rap é aquilo que você dá a ele. É como um metal que você extrai de uma montanha. Ele passa por um processo de calor onde ele derrete, e você pode fazer uma panela, que vai ajudar a saciar a fome de alguém, facilitar nesse processo do cozimento de algo específico. E esse mesmo metal pode fazer uma arma de fogo. O rap é um pouco de cada um, um pouco da sua intenção. Quando a gente visita histórias antigas, quando a gente visita as pessoas mais antigas, senhoras e senhores do bairro que abrem a boca e começam a contar suas histórias… você começa a entender tanta coisa. É matéria bruta, é matéria prima. É o magma, a mente dessas pessoas é o magma, e ajuda a gente a entender as intenções de cada geração, de determinado lugar. Às vezes a gente não sabe nem qual que é a gíria do outro lado do nosso bairro, pai, imagina querer falar de um continente chamado Brasil.

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9. Como foi escrever as músicas pro “Convoque seu Buda” já sendo um artista reconhecido, num contexto muito diferente do que o dos discos anteriores, sabendo que milhares de pessoas iriam escutá-las?

Foi com muita serenidade e dentro de um respeito muito grande pelas emoções das pessoas que me visitaram e que viraram canções. Sempre respeitar a verdade desse encontro, a verdade do que te emociona, a verdade do que te toca, a verdade que faz você se expressar, você querer fazer um registro de algo que veio na sua cabeça, no seu coração. Sempre assim. Não é só o escrever, é o viver. Viver seu cotidiano.

10. As lutas das minorias têm mais visibilidade hoje em dia do que tinham 10 anos atrás, quando o “Ainda há tempo” foi lançado. Ser negro no Brasil de 2016 é diferente do que era ser negro em 2006?

Não. Não mudou nada. Porque, se racismo ainda é uma das piores doenças que existem no Brasil, não mudou nada. Se a mulher fosse respeitada, não precisaria ter movimento feminista. As mulheres não são respeitadas. Os nordestinos continuam sendo desrespeitados, não recebem o respeito e o valor histórico de um povo que ajudou a levantar esse país inteiro. E é toda hora. Toda hora notícia. O que aconteceu ali? Por que você foi abordado? Pô, não sei, não entendi muito o que que o cara falou pra mim, porque que eu fui abordado.

Ainda estamos muito distantes do respeito absoluto.

Bem distantes. Posso te falar do que eu vi. Eu tenho dentro de casa isso, meu pai é negro, e já passamos por muita coisa pelo simples fato da cor da pele dele. Ele é negro, nordestino, morador de favela e metalúrgico. Você pode imaginar quantas histórias nós temos pra contar. É medonho, né? É bem triste. Não tem desculpa. Pra isso aí não tem desculpa, mano. Você gostar de tal coisa e eu não gostar, você ter uma vivência e eu ter outra, coisas do cotidiano, tudo bem. Coisas que vamos evoluir, vamos juntos tentar coexistir, resolver, desvendar alguns mistérios. Mas outras coisas não é nem questionamento, é real, saca?

Que bom que você, através da sua arte, e milhões de pessoas lutam todos os dias para que isso mude.

Claro, e uma pá de gente, a maioria. Independente se o cara é poeta, pintor, escritor, cantor, se tá na dramaturgia, no cinema, nas artes plásticas… É uma questão que trata de todos, né. Mas é isso aí, não pode perder a fé, irmão. Não pode se desconectar da fé, do amor, da solidariedade, do bom pensamento, o bom gesto, a boa atitude. Cada um do seu jeito. Cada um tem uma forma de se expressar, cada um tem uma vivência, uma cultura, uma bagagem. Cada um no seu tempo. Tá todo mundo tentando se encontrar, todo mundo tentando ser feliz de um jeito ou de outro, cada um do seu modo. A gente vive num ambiente extremamente hostil onde felicidade é algo distante, que ainda não vi.

É a busca.

É a busca, pai.

 

 

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