A Youcom, que adora um bom showzinho, apresentou ontem a primeira edição da Noites Morrostock, no Bar Opinião, em Porto Alegre. A festa estreou bombando com show da maior revelação recente da música brasileira, o cantor Liniker. Entrevistamos esse ser divino purpurinado e acompanhamos de pertinho tudo que rolou no evento que transformou o Opinião em Catedral do Lacre.

A pista já estava lotada quando a Mari Martinez e sua banda, The Soulmates, abriram a noite com seu som soul muito show. Ai, que trava língua rs. A Mari mandou muito no palco, toda linda num vestido Youcom que combinou demais com a energia da artista. A galera adorou as músicas e dançou junto, aquecendo bem pro arraso chamado Liniker que viria em seguida.

 

mari
Que lindo o look da Mari, da onde será que é? #YoucomFazida

 

Você já deve ter ouvido falar em Liniker. Se não ouviu, pfvr, procura no Youtube e se joga no som desse paulista de Araraquara que, com apenas 20 aninhos de vida e 5 meses de carreira, está conquistando o país inteiro.

Liniker, com uma voz incrível, muito amor pela música e muito orgulho de ser quem é, passou desfilando por cima de estereótipos e preconceitos e chegou para mostrar que todo mundo merece respeito, espaço e amor. Se liga no papo que batemos com o divo-diva antes do show e nas fotinhos que tiramos durante o agito:

 

 

Seu nome foi uma homenagem a um jogador de futebol. Teve pressão da família para você ser jogador?

“Eu tinha um tio que me castigava me deixando vendo jogo de futebol na frente da TV, porque ele sabia que eu não gostava. Eu gostava de brincar de boneca, de andar de salto em casa, gostava de KLB, de Kelly Key, de Rouge! Era maluquinho, já era uma criança bicha, graças a Deus. Isso incomodava muito os amigos minha mãe. Ela é mãe solteira, e eu cresci com a minha mãe, com minhas tias, com minhas primas. Os amigos da minha mãe sempre tentavam me podar, me davam carrinho de presente, mas minha mãe sempre me defendeu muito. Sempre falavam pra ela ‘dar um jeito no Liniker’, ‘botar ele pra jogar bola’, mas ela sempre me deixou muito livre. Ela falava: “você tem que ter respeito com as pessoas, e as pessoas tem que ter respeito com você”. Minha mãe é maravilhosa. Quando eu falei pra minha mãe que eu era gay, ela não sabia muito bem qual era o próximo passo que daria, mas ela foi muito generosa comigo, me respeitou num nível incrível. Disse pra eu viver minha vida, fazer minhas coisas, ser feliz. Eu sou o filho mais velho, ela é muito orgulhosa. Tudo que é matéria de jornal que sai ela imprime e guarda.”

 

lini1

O público recebeu Lini como uma deusa e cantou junto todos os hits instantâneos do cantor, como “Louise du Brésil” e “Zero”

 

Esse conflito dos outros com sua sexualidade inspirou suas primeiras letras?

“Eu nunca me deixei abalar, e era até muito bravo. Quando eu percebia que a pessoa queria me atingir, eu fechava a cara e não falava muito. Mas eu olhava bem no fundo do olho, e acho que a pessoa sentia um negócio. O que me abalava mesmo eram todos os sentimentos de amor que nunca deram certo, os amores que eu até idealizava, e eu sempre falava sobre eles. As músicas eram cartas de amor”

Como fluem as composições?

“Eu toco violão, componho melodia e a letra,  e passo pra banda. A gente começa a pensar junto, como que vai ser o arranjo, por onde que a gente pode caminhar. É muito gostoso isso do pensar em coletivo, já não é um processo só meu. Antes era, eu escrevia só ali no violão e a música tava fechada. O Paulo, meu produtor, foi uma das primeiras pessoas pra quem eu apresentei as minhas músicas, quando eu tinha uns 16 anos. Todo mundo aqui é amigo, se conhece faz tempo. A Renata, que faz backing vocals, mora comigo faz 3 anos. Eu ia na casa do Paulinho e dizia que tinha música pra mostrar, porque eu tinha muita vergonha de cantar em casa. Minha família era toda de músicos, era todo mundo muito foda, então rolava essa vergonha. Eu acabava saindo pra casa das pessoas, era sempre o amigo que tava com o violão na roda, mostrando as músicas.  Hoje eu abro pra mais possibilidades. E continuo escrevendo, não paro, já to fazendo música nova. Minha criatividade aquariana não para, é o tempo todo.”

Teve alguma música pra alguém especial? Pode revelar?

“Teve… (risos). Foi “Zero”. Falei pra pessoa antes de um show que tinha feito a música pra ela, mas não estamos juntos. Mas é assim, gente, a vida é cão.”

lini2

A banda de apoio, Os Caramelos, arrasou. Renata, a musa dos backing vocals, foi ovacionada pela plateia

 

Quando você começou a questionar a ideia de gênero de forma mais consciente?

“Depois de ter saído de casa e de ter ido fazer faculdade na Escola Livre de Teatro, em Santo André. Foi um lugar que me abriu muito a cabeça pra desconstrução e reflexão. Quando você sai de casa pra morar sozinho, as crises começam a se intensificar. Você começa a não dar conta, por estar sozinho, por ter que resolver muitas coisas. Você precisa se resolver, se aceitar, se engajar mais com você. Eu lembro a primeira vez que eu coloquei uma saia e saí na rua. Foi a primavera da minha vida. Foi muito gostosa a sensação de me sentir livre, de poder estar liberto de estereótipos. As pessoas perguntam se me vestir assim tem algo sobre criar um personagem, mas não é, isso vem de antes. É a minha verdade. Meu corpo tem verdade, tem vivência, não é personagem.”

Como é sua relação com as roupas?

“Eu só uso brechó, menina. Eu a-m-o brechó! A maioria das minhas roupas são de brechó. Comecei a usar vestidos que eram da minha vó – ia na casa dela e ela dizia que tinha roupa pra mim no guarda-roupa dela. Meu melhor amigo é costureiro, então a gente fica pirando em coisa juntos, faz roupa, eu vou ganhando roupa das amigas, das primas. Adoro roupa, adoro muito. Gosto muito de estampa, de estamparia étnica, gosto de roupa monocromática. Adoro um pretinho básico, também. Às vezes saio de moercegona.”

lini 3

Liniker não parou de dançar no palco e fez todo mundo rebolar como se não houvesse amanhã

Poucos meses depois de lançar um EP com apenas 3 músicas, você já está lotando shows pelo país, vendo um engajamento de público gigantesco para um artista independente. Isso era esperado?

“Quando começamos esse projeto, a gente queria muito que desse certo, mas a gente não tinha a dimensão de que seria tão rápido. Os meninos que tocam comigo já tinham banda independente, conheciam o cenário, e foi surpreendente pra todo mundo. A gente esperava uns meses de shows pelo interior,  ter 20 mil visualizações no Youtube. Mas lançamos a primeira música e o boom foi surreal. Eu ficava na frente do computador assim, sem acreditar. Foi tudo pelo Facebook. E olha que loucura isso: em 5 dias, a segunda música que a gente lançou, “Zero”, tava com um milhão de visualizações, e o segundo país que mais ouvia a gente depois do Brasil era a Polônia. A gente começou a se perguntar “gente, o que tá acontecendo?”. É legal demais. As pessoas mandam mensagem na página dizendo que não falam português, mas falam quando cantam as músicas. As pessoas tão abertas, elas tão sentindo. É muito doido.”

O público dos shows tem sido bem variado?

“Eu achei, no começo, que nosso público fosse ser só a galera LGBT, mas não é. A grande parte é, mas tem casais heteronormativos que vão, até senhoras, senhores, famílias com homem, mulher e três filhas. É muita gente que tá se sentindo parte do negócio. Vai muita gente que não é o público que as pessoas pensam que necessariamente seria nosso público-alvo. O mais interessante de tudo é isso: mostrar que é pela igualdade, que eu não quero segregar. É o que tá acontecendo, é muito bonito, muito emocionante.”

lini 4

Lini fez a multidão inteira rezar em altíssima voz a Oração do Lacre. Sério.

 

Um artista como você, que representa tanta gente, receber esse retorno intenso das pessoas não deixa de ser uma reação a esse contexto raivoso que se posiciona contra a liberdade.

“Essa representatividade que eu trago, me empoderando ali no palco, as pessoas pegam isso pra elas e vão levando isso pra outros lugar, elas vão se empoderando, germinando sementes. Depois dos shows, a gente recebe mensagens de ficar na frente do computador chorando por cinco minutos, do tipo “eu nunca me senti tão representado na vida, nunca tive tanta coragem de falar pra minha mãe quem eu sou de verdade, de sair de depressão depois de ver vocês”. Essa força de trazer a bicha preta, de falar da periferia, mas também falar de todo mundo. Tô empoderando muita gente, mas quero falar com todo mundo, não quero segregar nada. Quero que a gente faça esse coletivão.”

 

E o primeiro CD, quando sai? A nossa ansiedade está grande!

“Lançaremos no segundo semestre desse ano. O nome do CD é Remonta. As músicas são músicas de autodestruição. Eu escrevia pra desaguar o sentimento, e depois tava bem. É esse remontar. Primeiro CD da vida, gente! Mas a gente escolheu apresentar o CD pro público antes de lançar. No show, o público já escuta o Remonta, e já tem gente que foi em mais shows e sabe cantar tudo. Imagina quando lançar!”

lini 5

A gente diz REPRESENTATIVIDADE vocês dizem IMPORTA SIM

Depois do bis, Liniker se despediu de Porto Alegre sabendo que vai voltar. O artista e sua equipe seguem viagem para levar a turnê para palcos do Brasil inteiro e, logo logo, do mundo. Os clowns da Bandinha Di Dá Dó encerraram a noite com um show irreverente, misturando circo e o bom e velho roquenrou. A primeira edição da Noites Morrostock foi inesquecível. Nos vemos na próxima. <3

Comentários estão fechados.